A morte de João Guilherme Jorge Pires, de apenas 9 anos, na madrugada da última terça-feira (7), em Campo Grande, levanta questionamentos sobre a qualidade e a condução do atendimento médico prestado à criança ao longo de quase uma semana. O caso, registrado como homicídio culposo, quando não há intenção de matar, está sendo investigado pela Polícia Civil de Mato Grosso do Sul, que busca esclarecer se houve falha ou negligência por parte das unidades de saúde envolvidas.
Segundo relatos da família, João passou por sete atendimentos médicos em diferentes unidades, incluindo duas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), o IPA Universitário e a Santa Casa, antes de morrer. A sequência de idas e vindas, sem um diagnóstico preciso ou intervenção eficaz, evidencia um possível desencontro de informações e condutas médicas diante de um quadro que se agravava progressivamente.
Uma semana de idas ao hospital
A situação começou na quinta-feira (2), quando João sofreu uma queda enquanto brincava e bateu o joelho. Ele foi levado à UPA Tiradentes, onde realizou exame de raio-X. Sem sinais aparentes de lesão, foi liberado com prescrição de medicamentos para dor, como dipirona e ibuprofeno.
No dia seguinte (3), sem melhora no quadro, a família procurou o IPA Universitário. Após nova avaliação, o menino recebeu novamente medicação e foi liberado.
Já no sábado (4), a situação começou a se complicar. João voltou a ser atendido na UPA Universitário, desta vez relatando dores no peito. Ainda assim, segundo familiares, o caso foi tratado como ansiedade, e ele foi liberado mais uma vez.
No domingo (5), a família retornou à mesma unidade. João ficou em observação e, desta vez, um novo exame apontou uma lesão na região do joelho. A orientação foi procurar a Santa Casa no dia seguinte para imobilização.
Na segunda-feira (6), o menino foi até a Santa Casa, onde teve a perna imobilizada com uma tala e recebeu alta.
Piora repentina e morte
Horas depois de voltar para casa, o quadro de João se agravou de forma dramática. Segundo o cunhado da vítima, Michael Petrovich de Souza, o menino começou a passar mal durante a noite.
“Foi agravando, foi piorando. Quando eu entrei no quarto, ele estava roxo e sem ar. Ele estava praticamente partindo em cima da cama”, relatou.
A criança foi levada desacordada à UPA Universitário, onde precisou ser reanimada e entubada. Em seguida, foi transferida para a Santa Casa. No entanto, cerca de 30 minutos após dar entrada na unidade hospitalar, a família recebeu a notícia da morte. O óbito foi confirmado às 1h05 da madrugada.
Investigação e possíveis falhas
Diante da sequência de atendimentos e da rápida evolução para o óbito, a Polícia Civil solicitou exame necroscópico para determinar a causa da morte. O caso será encaminhado à Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (Depca), que deverá analisar toda a linha de atendimento prestado ao menino.
A investigação busca entender se houve erro de diagnóstico, subestimação dos sintomas, como a dor no peito, ou falhas na condução clínica.
Em nota oficial, a Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) informou que o caso está sendo apurado com base nos prontuários e registros médicos. A pasta destacou que, caso sejam identificadas irregularidades ou desvios de conduta, as medidas cabíveis serão adotadas.
Comoção e despedida
A morte precoce de João Guilherme também gerou forte comoção entre pessoas próximas. O menino era assistido pela Fundação Ueze Zahran, onde participava de atividades musicais.
Em nota de pesar, a instituição destacou a personalidade do garoto, lembrado pela alegria, sensibilidade e amor pela música.
“João Guilherme deixa entre nós lembranças marcadas por sua alegria […] tocando o coração de colegas, professores e de toda a comunidade”, diz trecho da homenagem.
Enquanto a investigação avança, familiares aguardam respostas sobre o que, de fato, levou à morte da criança e se o desfecho trágico poderia ter sido evitado diante dos sinais apresentados ao longo dos dias.





