Operações Omertà e Successione redefinem cenário criminal em MS e derrubam líderes históricos

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Fahd Jamil Georges, Jamil Name e Roberto Razuk. (Foto/ Campo Grande News)

Figuras emblemáticas da política e da economia sul-mato-grossense, três patriarcas que por décadas circularam entre influência e impunidade voltam a ocupar o noticiário — desta vez, não pelo poder acumulado, mas pelas investigações que desmontam estruturas antes consideradas intocáveis. Fahd Jamil Georges, Jamil Name e, agora, Roberto Razuk tiveram seus nomes ligados a crimes que vão do jogo do bicho à formação de organizações criminosas, passando pelo comando de milícias armadas.

As ações recentes da Polícia Federal e do Ministério Público escancaram a derrocada desse grupo, enfraquecido desde o início da Operação Omertà, deflagrada em 2019, e que hoje se conecta à prisão de Razuk, na 4ª fase da Operação Successione.


Omertà: o começo do fim

A virada ocorreu em 27 de setembro de 2019, com a primeira fase da Omertà, que resultou na prisão de Jamil Name e de seu filho, Jamil Name Filho, o “Jamilzinho”. Apontado como líder de uma milícia armada que operava execuções, ameaças e intimidação, Jamil Name — o “Velho” — foi encaminhado à Penitenciária Federal de Mossoró (RN). Morreu em 2021, vítima de covid-19, em hospital localizado em Natal. O filho permanece preso.

A Omertà avançou em oito fases e abriu caminho para atingir outros nomes fortes do crime organizado no Estado.


Fahd Jamil: o “Rei da Fronteira”

Considerado há décadas um dos chefes do crime na região da fronteira, Fahd Jamil teve a prisão decretada em junho de 2020, durante a 3ª fase da Omertà. A polícia sustentava que o império construído por Fahd começou com o contrabando de café e açúcar, evoluindo para o tráfico de drogas e armas.

Foragido por dez meses, ele se entregou em abril de 2021, aos 79 anos, debilitado por doença pulmonar obstrutiva crônica. Após período em prisão domiciliar, passou para medidas cautelares em 2022.

Entre os crimes atribuídos a Fahd está o duplo homicídio qualificado de 2016, no qual o servidor Alberto Roberto Aparecido Nogueira e o policial civil Anderson Celin foram encontrados carbonizados entre Ponta Porã e Caracol. A execução, segundo a denúncia, teria sido motivada por vingança pelo desaparecimento de seu filho, Daniel Alvarez Georges, desaparecido desde 2011 e declarado morto em 2019.


A disputa entre famílias e a ascensão dos Razuk no noticiário

À medida que o poder dos Name enfraquecia após a Omertà, um novo embate se formou. As famílias Razuk e Name passaram a disputar influência sobre o sistema do jogo do bicho, com foco na licitação da plataforma eletrônica da Lotesul.

Em janeiro de 2023, Jamil Name Filho tentou barrar o certame com recursos administrativos. Na mesma época, documentos judiciais mostraram que Roberto Razuk havia quitado custas relacionadas ao processo, demonstrando interesse no controle da operação.


Quem é Roberto Razuk

Aos 84 anos, Razuk tem longa trajetória pública e empresarial. Foi deputado estadual entre 1987 e 1995 e já havia sido preso na Operação Xeque-Mate, em 2007, deflagrada contra o jogo ilegal.

Em 2003, foi condenado pela Justiça Federal de Dourados por falsificação de documento público, falsidade ideológica, uso de documento falso, crimes contra o sistema financeiro e desvio de recursos de um empréstimo do Banco do Brasil. A sentença foi assinada pelo então juiz federal Odilon de Oliveira.

Razuk é pai do deputado estadual Neno Razuk (PL).


Operação Successione: o novo capítulo

Nesta semana, Razuk foi preso na 4ª fase da Operação Successione, que mira uma organização criminosa envolvida em jogos ilegais, corrupção e roubos. Os filhos, Jorge e Rafael Razuk, também foram detidos.

A ofensiva cumpriu 20 mandados de prisão preventiva e 27 mandados de busca e apreensão em cinco municípios sul-mato-grossenses — Campo Grande, Dourados, Corumbá, Maracaju e Ponta Porã — além de atingir alvos no Paraná, Goiás e Rio Grande do Sul.

As fases anteriores já haviam identificado uma estrutura criminosa armada e violenta que tentava ocupar o vácuo deixado pela queda do grupo de Jamil Name após a Omertà. O objetivo seria assumir o monopólio do jogo do bicho em Campo Grande.


Um ciclo que se encerra?

A prisão dos três patriarcas simboliza o enfraquecimento de grupos que, por décadas, atuaram à margem do Estado, mas exercendo sobre ele forte influência política e econômica. A sucessão de operações federais mostra que, mesmo tardio, o cerco se fechou — e que o poder paralelo em Mato Grosso do Sul, antes intocável, vive talvez seu período mais frágil.