Energia sobrando: ONS determina corte na produção de usinas solares em 12 estados

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Pela primeira vez na história, o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) vai acionar um plano emergencial para reduzir a geração de energia elétrica no Brasil devido ao excesso de oferta. A medida será aplicada neste domingo (7), entre 10h e 14h, e afetará principalmente pequenas usinas solares conectadas às redes de distribuição.

A decisão alcança Mato Grosso do Sul e outros 11 estados brasileiros, em uma ação inédita autorizada pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) por meio do Plano Emergencial de Gestão de Excedentes de Energia na Rede de Distribuição, aprovado em novembro de 2025.

Segundo o ONS, a combinação entre baixa demanda típica dos finais de semana e alta geração de energia solar pode provocar desequilíbrios operacionais na rede elétrica. O receio é que a produção supere o consumo e acabe gerando instabilidades capazes de provocar desligamentos automáticos em partes do sistema.

As distribuidoras participantes, entre elas a Energisa MS, serão responsáveis por selecionar quais empreendimentos terão a geração reduzida temporariamente. O plano prevê um sistema de rodízio para evitar que os mesmos produtores sejam prejudicados repetidamente.

Brasil produz energia demais, mas consumidor continua pagando caro

A medida, porém, levanta uma série de questionamentos que vão além da questão técnica.

Se o país enfrenta um cenário de excesso de energia elétrica, por que a solução é interromper a geração em vez de beneficiar a população com tarifas menores? Por que a energia excedente não pode ser direcionada para reduzir custos ao consumidor ou estimular setores produtivos?

Especialistas apontam que o problema está na estrutura do sistema elétrico brasileiro. A energia produzida precisa ser consumida praticamente no mesmo instante em que é gerada. Quando a produção supera a demanda, a rede pode sofrer sobrecargas e instabilidades.

Além disso, a infraestrutura de armazenamento em larga escala, como baterias e sistemas de acumulação energética, ainda é limitada no Brasil. Sem capacidade suficiente para guardar a energia excedente, o operador precisa reduzir a produção para manter o equilíbrio da rede.

Falta de investimento em armazenamento?

Outro ponto que desperta debate é a velocidade da expansão da energia solar em comparação aos investimentos na modernização da rede elétrica.

Nos últimos anos, o Brasil registrou um crescimento acelerado da geração fotovoltaica, impulsionado por usinas de pequeno e médio porte e pela geração distribuída. No entanto, especialistas do setor alertam que os investimentos em sistemas de armazenamento, linhas de transmissão e tecnologias de gerenciamento inteligente não acompanharam o mesmo ritmo.

Na prática, o país vive uma situação aparentemente contraditória: há momentos em que sobra energia limpa e renovável, mas a estrutura disponível não consegue aproveitar integralmente esse excedente.

Energia sobrando e conta alta

A situação também reacende o debate sobre o custo da energia para o consumidor brasileiro.

Embora exista excesso de geração em determinados períodos do dia, a tarifa de energia é composta por diversos fatores, incluindo transmissão, distribuição, encargos setoriais, tributos e contratos de compra de energia firmados anteriormente. Por isso, a simples existência de energia excedente não resulta automaticamente em redução da conta de luz.

Ainda assim, especialistas defendem que o cenário deveria acelerar discussões sobre novas políticas públicas, incluindo incentivos ao armazenamento de energia, expansão da infraestrutura elétrica e mecanismos que permitam ao consumidor se beneficiar de momentos de grande oferta energética.

Enquanto isso, o Brasil entra para uma nova fase de sua matriz elétrica: pela primeira vez, o desafio não é a falta de energia, mas o que fazer quando ela sobra.